"Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos. "

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf

O amor e a jovialidade da velhice são os temas desta maravilhosa obra de Virginia Woolf, que está muito além do limitado rótulo “um dia na vida de uma mulher”, tão difundido também pelo filme As Horas (2002), que inclusive adulterou vários dos significados de autora e obra.
É inevitável que citemos o filme porque é uma abordagem extraordinária sobre literatura, mas não propriamente sobre Virginia; a força de suas palavras não casa com aquela imagem afetada e convencida. Mas há também de se levar em conta a possibilidade de que no cotidiano a autora era o negativo do que relevava em sua obra, o que é uma busca natural, e aí sim se fundamentaria a visão do diretor Stephen Daldry.
Graças a essa visão, o livro da autora inglesa, que desde seu lançamento em 1925 até 2002 havia vendido 15 mil cópias em todo o mundo, em três meses de exibição de filme vendeu 40 mil exemplares. Inúmeros deles foram imediatamente parar em sebos, porque Woolf é uma autora que pede muitos anos de leitura; ela chega ao leitor que já está saturado das formas tradicionais de prosa e ávido por outras possibilidades, mas acima de tudo extremamente carregadas de emoção.
Rumo ao Farol (de que já falámos aqui) é sem dúvida a melhor porta de entrada para quem nunca leu Virginia Woolf. Depois dele, todos os enfoques de Mrs. Dalloway são compreensíveis e preciosos. Mrs. Dalloway é um livro apaixonado pela vida, assim como uma de suas personagens principais, Clarissa Dalloway.
É de conhecimento geral que Woolf tinha adoração pelo conto “Bliss”, de Katherine Mansfield. “Morro de inveja daquela mulher!”, gritava pelos pubs londrinos referindo-se à contista neo-zelandesa, que naquela época morava também na cidade. Conheceram-se, invejaram-se. Anos depois, nasce o livro de Woolf com primeiros parágrafos muito parecidos ao conto de Mansfield: uma mulher incrivelmente alegre caminha pelas ruas e o leitor já percebe que essa alegria não é real: ela é uma ansiedade, uma máscara, é o medo de sentir medo. Mas ao contrário da jovem Bertha Young, a senhora Clarissa Dalloway vai ficando cada vez mais consciente enquanto o sol faz sua caminhada pelo céu. Tanto que o título original do livro seria As Horas, roubado por Michael Cunningham quase um século depois para o romance que daria origem ao filme.
Clarissa Dalloway (“o ar de uma criatura a se mover no seu verdadeiro elemento. Mas a idade a atingira; e, tal uma sereia, podia contemplar no seu espelho um claro pôr de sol sobre as águas”), Richard Dalloway, Sally Seton (“Tinha perdido o brilho. Mas era tão extraordinário vê-la de novo, mais feliz, menos encantadora”), Peter Walsh, Elizabeth, Septimus Smith, Rezia; até a empregada Lucy não deixa de ter sua vida interior revelada (“Lucy desceu correndo as escadas, depois de haver entrado no salão para alisar uma toalha, endireitar uma cadeira, deter-se um momento para imaginar como os convidados achariam tudo tão limpo, tão bem cuidado, quando vissem a magnífica prataria, os candelabros de bronze, as novas capas dos móveis, e as cortinas de chitão amarelo; apreciou tudo; ouviu um ruído de vozes; já vinham de volta da mesa; ela devia sair ventando!”).
Mrs. Dalloway é uma personagem que já passeou por vários contos de Virginia; inclusive esse romance é a fusão de dois deles. Todas as passagens devem ser apreciadas como se o livro não tivesse final: uma frase, uma lembrança, uma imaginação – tudo é sempre o início, porque a mente sempre tem inícios para o pensamento, mas nunca está realmente preocupada em concluí-los. E é essa qualidade da existência que Virginia Woolf magicamente soube transformar em literatura.



Examine por um momento uma mente comum em um dia comum. A mente recebe uma miríade de impressões - triviais, fantásticas, evanescentes, ou gravadas com a agudeza do aço. De todos os lados as impressões chegam, como uma chuva incessante de átomos; e quando caem, tomam a forma da vida de segunda-feira, terça-feira, e o modo desta chuva de impressões é diferente de outra; (...) A vida não é uma série de lampiões simetricamente arrumados; a vida é um halo luminoso, um envoltório semi-transparente que nos envolve do início da consciência até o fim.  (Virginia Woolf)


( Texto retirado de : Orgia Literária )

Nenhum comentário:

Postar um comentário