É inevitável que citemos o filme porque é uma abordagem extraordinária sobre literatura, mas não propriamente sobre Virginia; a força de suas palavras não casa com aquela imagem afetada e convencida. Mas há também de se levar em conta a possibilidade de que no cotidiano a autora era o negativo do que relevava em sua obra, o que é uma busca natural, e aí sim se fundamentaria a visão do diretor Stephen Daldry.
Graças a essa visão, o livro da autora inglesa, que desde seu lançamento em 1925 até 2002 havia vendido 15 mil cópias em todo o mundo, em três meses de exibição de filme vendeu 40 mil exemplares. Inúmeros deles foram imediatamente parar em sebos, porque Woolf é uma autora que pede muitos anos de leitura; ela chega ao leitor que já está saturado das formas tradicionais de prosa e ávido por outras possibilidades, mas acima de tudo extremamente carregadas de emoção.
Rumo ao Farol (de que já falámos aqui) é sem dúvida a melhor porta de entrada para quem nunca leu Virginia Woolf. Depois dele, todos os enfoques de Mrs. Dalloway são compreensíveis e preciosos. Mrs. Dalloway é um livro apaixonado pela vida, assim como uma de suas personagens principais, Clarissa Dalloway.
É de conhecimento geral que Woolf tinha adoração pelo conto “Bliss”, de Katherine Mansfield. “Morro de inveja daquela mulher!”, gritava pelos pubs londrinos referindo-se à contista neo-zelandesa, que naquela época morava também na cidade. Conheceram-se, invejaram-se. Anos depois, nasce o livro de Woolf com primeiros parágrafos muito parecidos ao conto de Mansfield: uma mulher incrivelmente alegre caminha pelas ruas e o leitor já percebe que essa alegria não é real: ela é uma ansiedade, uma máscara, é o medo de sentir medo. Mas ao contrário da jovem Bertha Young, a senhora Clarissa Dalloway vai ficando cada vez mais consciente enquanto o sol faz sua caminhada pelo céu. Tanto que o título original do livro seria As Horas, roubado por Michael Cunningham quase um século depois para o romance que daria origem ao filme.
Clarissa Dalloway (“o ar de uma criatura a se mover no seu verdadeiro elemento. Mas a idade a atingira; e, tal uma sereia, podia contemplar no seu espelho um claro pôr de sol sobre as águas”), Richard Dalloway, Sally Seton (“Tinha perdido o brilho. Mas era tão extraordinário vê-la de novo, mais feliz, menos encantadora”), Peter Walsh, Elizabeth, Septimus Smith, Rezia; até a empregada Lucy não deixa de ter sua vida interior revelada (“Lucy desceu correndo as escadas, depois de haver entrado no salão para alisar uma toalha, endireitar uma cadeira, deter-se um momento para imaginar como os convidados achariam tudo tão limpo, tão bem cuidado, quando vissem a magnífica prataria, os candelabros de bronze, as novas capas dos móveis, e as cortinas de chitão amarelo; apreciou tudo; ouviu um ruído de vozes; já vinham de volta da mesa; ela devia sair ventando!”).
Mrs. Dalloway é uma personagem que já passeou por vários contos de Virginia; inclusive esse romance é a fusão de dois deles. Todas as passagens devem ser apreciadas como se o livro não tivesse final: uma frase, uma lembrança, uma imaginação – tudo é sempre o início, porque a mente sempre tem inícios para o pensamento, mas nunca está realmente preocupada em concluí-los. E é essa qualidade da existência que Virginia Woolf magicamente soube transformar em literatura.
Examine por um momento uma mente comum em um dia comum. A mente recebe uma miríade de impressões - triviais, fantásticas, evanescentes, ou gravadas com a agudeza do aço. De todos os lados as impressões chegam, como uma chuva incessante de átomos; e quando caem, tomam a forma da vida de segunda-feira, terça-feira, e o modo desta chuva de impressões é diferente de outra; (...) A vida não é uma série de lampiões simetricamente arrumados; a vida é um halo luminoso, um envoltório semi-transparente que nos envolve do início da consciência até o fim. (Virginia Woolf)
( Texto retirado de : Orgia Literária )

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